É DE SOBRAL A MENOR TAXA DE MORTALIDADE INFANTIL



Com a filha Vitória, de 1 ano e 9 meses, nos braços, a dona de casa Jociêne de Sousa se emociona ao lembrar o quanto a vida da criança foi atribulada, antes mesmo de seu nascimento. A mãe biológica da pequena, que nasceu prematura, é ex-mulher do irmão de Jociêne. E já colocava a vida da filha em risco, desde os primeiros meses de gestação por conta do uso de drogas. Vinda de uma gravidez complicada, com 500 gramas ao nascer, a criança precisou de cuidados intensivos numa UTI.

Vitória continuou em situação de risco em casa, ao lado da mãe, que, segundo Jociêne, não tinha os cuidados necessários com a bebê, que se encontrava desnutrida, até ser resgatada pela tia. "Um dia eu cheguei na casa dela, e vendo aquela situação, pedi para criar minha sobrinha. Estou cuidando na Justiça para assumir a guarda da filha que sempre quis ter", disse.

Para cuidar da filha, a dona de casa, moradora do Bairro Alto da Brasília, um dos mais populosos da periferia de Sobral (2.037 famílias), teve que contar com ajuda extra, mesmo depois de abrir mão do trabalho para estar em casa em tempo integral. "Eu nunca tinha cuidado de um bebê prematuro, então tive orientação do Projeto Coala, com equipe que vinha na minha casa conferir peso, medicação, enfim, tudo que precisava para crescer com saúde. Eu devo a vida da Vitória ao projeto", contou.

Agente Comunitário

Com 25 anos de experiência na atenção às famílias que por algum motivo vivem em situação de risco, a agente comunitária de Saúde Nivalda Gadelha Gomes perdeu as contas de quantas crianças passaram por suas mãos, mas se orgulha das mudanças que ocorreram na saúde do Bairro com a implantação do Programa de Saúde da Família (PSF), que aproximou os Centros de Saúdes da Família (CSFs) da população, estendendo o atendimento às casas.

"Somos nós que estamos na ponta, que sabemos cada caso e como ajudar nesse acesso da família à saúde. O trabalho realizado em equipe faz uma cobertura integral, casa a casa. A história da Vitória ainda me emociona, pela situação em que ela se encontrava, e como a tia, que hoje é mãe dela, tentou de tudo para salvar a vida dessa criança. Ela não precisa mais do Projeto Coala, pois está forte e saudável, mas eu continuo visitando a casa porque, apesar do meu trabalho como agente comunitária, tenho uma afeição por elas duas", disse, enquanto ajudava a trocar a fralda do bebê.

Queda na taxa

O caso de Vitória, que teve todo o apoio necessário logo no início da vida, é um dos milhares contabilizados ao longo dos anos em Sobral, que registrou a menor taxa de mortalidade infantil do Norte e Nordeste nos primeiros quatro meses deste ano. Segundo dados do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde, o índice obtido pelo Município foi de 7,4 óbitos a cada mil nascidos vivos, de janeiro a abril. Comparado ao ano de 2006, quando morriam quase 17 crianças antes de completar 1 ano de idade a cada mil nascidas vivas, a redução na taxa de mortalidade infantil foi de 56%.

Trevo de Quatro Folhas

Entre as medidas adotadas pelo Município, estão a premiada estratégia Trevo de Quatro Folhas, hoje transformada em Instituto, implantada em 2001 para oferecer assistência social no pré-natal, nascimento e puerpério, que é o cuidado da mãe e da criança após o nascimento, até 2 os anos de idade. Àquela época, as crianças morriam antes de completar um ano. Os motivos eram os mais variados, como pais usuários de drogas, falta de cuidado por parte das mães, extrema pobreza, falta de nível mínimo de educação sociocultural, alimentação deficiente, entre outros.

O trabalho do Trevo de Quatro Folhas se dá por meio da Mãe Social, que tem contribuído diretamente para a queda dos índices de mortalidade infantil no Município, com o cuidado na primeira infância, período de maior fragilidade da criança, anterior a um ano. A Mãe Social se instala dentro da casa da família atendida e cuida tanto da mãe quanto do recém-nascido.

A dona de casa Janaína Teixeira, 20, moradora do Bairro Dom Expedido, se dedica integralmente ao pequeno João Lucas, de 15 dias. Mas, dar conta das tarefas domésticas e cuidar do filho ao mesmo tempo demanda atenção redobrada e um esforço que requer ajuda. Beneficiada pelo Projeto Trevo de Quatro Folhas, Janaína passou a receber apoio da Mãe Social Ana Cláudia Vieira, 38, quatro filhos.

O trabalho se dá de 7h às 11h, com retorno de 13h às 17h, de segunda a sábado; o domingo pode ser negociado, dependendo da necessidade da família. A experiência é nova para ambas, já que Ana Cláudia exerce pela primeira vez a função, desde junho de2015. "Minha mãe também é Mãe Social", diz ela, e reforça: "de tanto ela falar desse trabalho lá em casa, eu acabei por querer conhecer mais e me apaixonei. Me sinto realizada ao ensinar outras mães o que aprendi no cuidado com meus filhos".

Orientada pela Mãe Social, Janaína se sente mais segura ao cuidar de João Lucas: "a paciência que a Cláudia tem ao me ensinar o que preciso saber para ver meu filho crescer com saúde, me deixa emocionada. Eu sei que, em determinado momento, ela vai nos deixar, até porque outras mães e crianças vão precisar da sua ajuda. Agradeço por ela estar na minha vida e na do meu filho também".

Projeto Coala

Criado em 2013, o Projeto Coala, oferece cuidados especiais aos bebês prematuros na própria residência, com acompanhamento diário de equipe médica, evitando riscos de infecção hospitalar. A necessidade desse atendimento veio após vários diagnósticos da Secretaria Municipal da Saúde, que indicavam morte significativa nas UTIs de crianças prematuras, que continuavam internadas para ganhar peso, mas sob o risco de infecção hospitalar. À época, foi decido que esses pacientes poderiam ser cuidados em casa, junto da família, com supervisão da Secretaria da Saúde.

O novo atendimento, que passou a ser diário, envolveu as 63 equipes da Atenção Básica, com neonatologia, enfermeiras, técnicos de enfermagem, agentes de saúde e demais profissionais. Mas a assistência na busca pela desejada redução da mortalidade infantil ganhou mais um projeto, que viria para aperfeiçoar o acompanhamento do pré-natal e ao recém-nascido. O Projeto Flor do Mandacaru, que oferece atendimento aos adolescentes de 10 a 19 anos com oficinas nas escolas, leva em consideração o grau de risco de cada paciente, do pré-natal ao parto.

"Nós temos hoje 61 equipes de Saúde da Família com uma abrangência de 98% no Município, mais 33 Unidades Básicas de Saúde. O indicador que se refere a Sobral como o menor em índice de mortalidade infantil, no Norte e Nordeste, calculado pelo Ministério da Saúde, e de acesso público, nos deixa felizes, por saber que estamos no mesmo patamar de outras regiões. A cidade de Curitiba, no Paraná, por exemplo, possui índice que vai de 6,8 a 7%. Por estamos inseridos no Nordeste, numa região de seca, é importante ressaltar esses resultados conquistados com muito trabalho mútuo, com o compromisso de todos na execução dessas várias ações", disse a secretária de Saúde de Sobral, Mônica Lima.

Outros apoios

O resultado histórico tem sido possível com apoio de outras ações de ampliação do atendimento em saúde, como a instituição da Semana Sobralense de Aleitamento Materno; a ampliação da licença-maternidade das servidoras públicas municipais de seis para oito meses; a criação do "Selo Trevo de Quatro Folhas", concedido anualmente aos Centros de Saúde da Família que não registraram óbito materno, fetal e infantil evitável; e a criação do Comitê Municipal de Prevenção da Mortalidade Materna, Perinatal e Infantil.

Comentário: Como profissionais de saúde e principalmente como cidadãos, uma notícia desta nos enche de orgulho, claro não é a realidade que gostaríamos, mas é satisfatório saber e vivenciar que a colocação em prática de ações em Saúde, consideradas básicas, estão fazendo a diferença e tendo ótimos resultados. E isso mostra, também, que é possível mudar a situação de saúde no país, bastando primeiro uma gestão que realmente esteja disposta a fazer o melhor com o pouco que se têm.

Fonte: Diário do Nordeste

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