AS FALSAS HÉRNIAS DE DISCO LOMBARES

Por que se tornou tão comum ouvir alguém falando que tem hérnia de disco? Parece que a resposta vem do não esclarecimento na mídia e por parte dos profissionais de saúde de uma definição correta do que é hérnia de disco e de seu diagnóstico. 

A supervalorização das hérnias que aparecem nos exames de imagem como a ressonância magnética fica muito clara quando as pessoas dizem “a minha hérnia está se manifestando” sempre que uma dor lombar aparece. 

Ter uma crise de dor lombar incapacitante e ler o resultado “hérnia de disco” ou até mesmo ouvir da boca de um profissional de saúde que a causa da dor lombar é a hérnia que aparece no exame é como se fosse uma condenação para muitas pessoas. 

O medo de danificar mais ainda a coluna fica claro em situações do dia-a-dia que envolvem principalmente pegar peso, impacto e ficar em determinadas posturas. As limitações criadas por essas crenças incapacitantes vão desde as tarefas mais simples como dobrar o tronco para pegar algo no chão, até “não posso correr por causa do impacto na minha hérnia”. Mas será que essas pessoas tem razão de ter esse medo? Primeiro vale à pena ver a definição de hérnia de disco e, segundo a ciência, do que é o diagnóstico de hérnia de disco. 

Hérnia de disco é a ruptura do material fibrocartilaginoso (anel fibroso) que circunda o disco intervertebral. Essa ruptura envolve a liberação do material central do disco contendo a substância chamada núcleo pulposo, colocando pressão sobre um NERVO ESPINHAL e causando dor considerável e dano ao NERVO.

De acordo com o artigo científico mais citado sobre o assunto (Deyo e col., Annals of Internal Medicine) o diagnóstico de hérnia de disco é utilizado em excesso, particularmente rotulando as pessoas que têm incapacidades funcionais severas associadas à dor lombar. 

O diagnóstico VERDADEIRO da maioria das hérnias de disco, segundo esse e vários outros estudos, deveria ser: DOR CIÁTICA (ABAIXO DO JOELHO) associada a SINAIS NEUROLÓGICOS (DORMÊNCIA E/OU PERDA DE FORÇA NOS MEMBROS INFERIORES) que leva a uma suspeita de hérnia de disco que deveria ser confirmada pela RESSONÂNCIA MAGNÉTICA apenas após 6 semanas, que é o período que boa parte das pessoas melhora naturalmente. Quando não há melhora importante durante esse período, uma investigação mais aprofundada passa a ter fundamento. 

Mesmo as hérnias de disco enormes, quando não há presença de INCONTINÊNCIA URINÁRIA OU FECAL, OU PERDA DE FORÇA IMPORTANTE NOS MEMBROS INFERIORES, têm bons resultados com o tratamento conservador (sem cirurgia).

Infelizmente não é o que acontece na maioria dos casos. Basta ter uma dor lombar incapacitante com uma pequena dor referida para atrás da coxa para que seja levantada a hipótese de hérnia de disco. Muitas pessoas que até mesmo tiveram dores apenas na lombar têm orgulho das suas “falsas” hérnias de disco que apareceram nas ressonâncias magnéticas inadequadas e desnecessárias. 

Há até uma certa competição para dizer quem tem mais hérnias na coluna toda. E isso é fruto desse diagnóstico inadequado de hérnia de disco apenas no exame de imagem, sem sinais e sintomas que são inerentes ao problema. 

É importantíssimo entender que os estudos mostram que as pessoas que nunca tiveram dor lombar na vida têm, comumente, “falsas” hérnias de disco nos exames de imagem e que a realização de ressonância magnética precoce desnecessária é cientificamente considerada IATROGENIA (erro do profissional de saúde) e causa muitas vezes dano psicológico a boa parte dos pacientes que passam a proteger a coluna “danificada”.

É por isso que eu digo para boa parte dos meus pacientes: “a sua coluna está melhor do que a minha. Tenho duas falsas hérnias de disco na coluna cervical que me causaram dano psicológico outrora, mas que hoje, são apenas alterações que muitos dos meus amigos que nunca tiveram dor no pescoço na vida também têm.” Ney Meziat (Fisioterapeuta-RJ).

Por: Lucas Mendes - Fisioterapeuta
Via: fisiolucasmendes.com.br

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