ABRAFIN emite parecer sobre atuação da Fisioterapia e da Terapia Ocupacional no tratamento de pacientes com Parkinson

Imagem: acordacidade.com

Em janeiro, os jornais Zero Hora, do Rio Grande do Sul, e o Estado de Minas, de Minas Gerais, veicularam matéria baseada em um estudo britânico publicado na revista JAMA Neurology, o qual atestava que a Fisioterapia e a Terapia Ocupacional não auxiliavam no tratamento de pacientes com Parkinson. A fim de compreender mais amplamente o estudo, a Associação Brasileira de Fisioterapia Neurofuncional (ABRAFIN) analisou o material e publicou parecer contrário ao exposto no artigo.
Para a Associação, o resultado obtido na Inglaterra condiz apenas com a realidade do país, especialmente, no que se refere à prescrição, ao tratamento e ao número de atendimentos prestados aos pacientes com Parkinson, considerado de baixa dosagem no Brasil. Essa prática, inclusive, pode ter sido um dos fatores centrais à conclusão do estudo inglês.

Entenda o estudo

De acordo com a associação, o referido artigo é um estudo pragmático sobre a efetividade da Fisioterapia e da Terapia Ocupacional prescritas de forma individualizada no tratamento de pacientes nos estágios leve e moderado da doença de Parkinson.  A pesquisa, realizada na Inglaterra, contou com 762 indivíduos com a doença, predominantemente nos estágios leve e moderado, distribuídos de forma aleatória em dois grupos: um grupo que realizaria Fisioterapia e Terapia Ocupacional de acordo com as diretrizes de um protocolo já existente (grupo intervenção) e outro grupo sem as terapias em questão (grupo controle).
O objetivo do estudo era avaliar a efetividade da Fisioterapia e da Terapia Ocupacional na Inglaterra, tendo como contraponto o tratamento estabelecido para pacientes com Parkinson no país, afinal o UK National Institute for Health and Care Effectiveness (equivalente ao SUS do Brasil) determina que todo paciente acometido pela doença receberá ambas as terapias.
Segundo o parecer da ABRAFIN, e em respeito ao trabalho desenvolvido pela instituição que realizou o estudo, apesar de todas as qualificações e metodologias utilizadas, é necessário destacar algumas limitações, entre elas o instrumento de análise, neste caso a escala Nottingham Extended Activities of Daily Living(NEADL). “Esta escala avalia 22 atividades distribuídas em quatro subescalas: mobilidade, atividades de cozinha, atividades domésticas e de lazer. Esta escala é preenchida pelo próprio indivíduo através da marcação de um dos itens (atividade não é realizada; atividade realizada com ajuda; atividade realizada de forma independente, porém com dificuldade; atividade realizada de forma independente). Os dois primeiros itens pontuam zero e os dois últimos, um ponto. Quanto maior a pontuação, maior o grau de independência”.
Para a ABRAFIN, embora a NEADL apresente boa correlação com a escala Unified Parkinson Disease Rating Scale(UPDRS), ferramenta clínica padrão-ouro mais utilizada para avaliar os comprometimentos globais dos indivíduos com doença de Parkinson, a UPDRS não reflete as tarefas de funcionalidade dos membros superiores e inferiores.
A Associação destaca, ainda, que a avaliação, sob a forma de questionário, apresenta um aspecto subjetivo para aferir as tarefas motoras e não mensura, por exemplo, dados quantitativos relacionados às atividades de vida diária. “Um exemplo seria o tempo que os pacientes com DP levam para executar uma tarefa”.
Outro argumento elencado pela ABRAFIN é a carência de testes específicos que avaliem os comprometimentos motores como lentidão na escrita ou digitação, e as dificuldades em tarefas de destreza motora fina.

Tratamento

Para a ABRAFIN, cabe ressaltar que o divulgado pelos jornais mostra, de fato, que a linha de tratamento adotada na Inglaterra precisa ser refletida para que sejam resolutivas aos pacientes com doença de Parkinson. Especialmente, pela incongruência entre a avaliação, a prescrição do tratamento e a baixa dosagem da intervenção (a mediana da terapia oferecida aos pacientes foi de 4 sessões de aproximadamente 1 hora durante 8 semanas, ou seja, os pacientes receberam em média menos de 4 horas de Fisioterapia durante o período em que a intervenção ocorreu, o que representaria 2 sessões por mês).
“A Fisioterapia é a abordagem não médica mais frequentemente aplicada aos indivíduos com doença de Parkinson e, com base nos avanços científicos alcançados nos últimos anos, conta com recomendações específicas de intervenção e de cuidado, de acordo com o nível de evidência científica disponível. É possível que a baixa dosagem de Fisioterapia tenha influenciado a ausência de efeito observada, principalmente, após análise realizada com subgrupo mais afetado pela doença.”
De acordo com o parecer, a pesquisa reflete o abismo existente entre as evidências científicas e a prática clínica, e mostra que as intervenções já consagradas e reconhecidas em indivíduos com doença de Parkinson não estão sendo (ou não são passíveis de serem) implementadas no dia a dia.  Além disso, o uso da escala NEADL prejudicou a análise dos resultados e desencadeou a interpretação equivocada dos jornais citados de que a Fisioterapia e a Terapia Ocupacional não trazem benefícios a curto e médio prazos a indivíduos nos estágios leve e moderado da doença de Parkinson.

Clique aqui e leia na íntegra o parecer da ABRAFIN.
Via: http://www.coffito.org.br/

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